Fala, BiUPPER.
Existe uma cena que se repete todo fim de ano e, se você observar com cuidado, dá pra ouvir o estalo. O escritório vai esvaziando, a caixa de e-mail perde a urgência, o grupo do time entra em modo silencioso, e alguém, inevitavelmente, solta: “ano que vem vai ser diferente”. Eu entendo a boa intenção por trás dessa frase — ela é quase um abraço coletivo —, mas quase sempre ela significa o oposto: o próximo ano vai ser exatamente como este, só que com novas metas e um tema de apresentação mais bonito. O motivo não é mistério. A maioria das empresas tenta começar o futuro em janeiro, quando o futuro, na prática, já estava sendo disputado em novembro. O mercado não espera o carnaval pra começar a operar; os concorrentes não combinam “voltar com tudo depois das férias”; as oportunidades que parecem “aparecer” em março foram plantadas enquanto os outros ainda estavam discutindo o que teria que mudar “quando tudo voltasse ao normal”.
O que separa quem cresce de quem repete o roteiro não é um plano mais inteligente, é a hora em que o plano nasce. Tem gente que acha que planejar é sobre planilhas. Eu acho que é sobre lucidez. É sobre a coragem de olhar pro ano que passou sem autoproteção e fazer as perguntas que quase ninguém faz quando o clima é de confraternização: o que funcionou por causa do método e o que funcionou por sorte? o que eu poderia repetir de olhos fechados porque está desenhado, e o que eu só consegui à base de esforço heróico? onde eu disse “falta prioridade” quando, na verdade, faltou dono? Planejamento, nesse sentido, não é uma reunião. É um modo de ver.
Tem uma frase que gosto de repetir internamente: janeiro não é para decidir — é para executar. Se você está decidindo em janeiro, talvez esteja começando tarde. As decisões que mexem no ponteiro (onde apostar, o que cortar, o que testar, o que escalar, quem assume o quê) precisam estar fechadas enquanto o resto do mercado ainda está no modo “vamos fechar o ano”. Isso não tem nada de extraordinário — é o básico feito na hora certa. E aqui mora outra verdade incômoda: o básico sustenta o sofisticado. Operações que admiramos por fora, por campanhas ousadas ou lançamentos elegantes, por dentro rodam em três engrenagens previsíveis: um diagnóstico honesto (sem vaidade), uma rota com dono (sem ambiguidade) e uma cadência que não falha (sem folga para o acaso).
Mas a comunidade BiUP cresce porque já entendeu que crescimento de verdade não se escreve em planilhas de dezembro — se constrói antes.
Sumário — o que você vai levar dessa leitura
Nesta edição:
👉 Por que a maioria das empresas planeja quando o tempo já acabou.
👉 Como o planejamento deixou de ser burocracia e virou vantagem competitiva.
👉 E o passo-a-passo prático para começar 2026 agora, dentro da Era da Previsibilidade.
O mesmo roteiro, todo ano
Nos últimos anos, acompanhando operações de tamanhos diferentes, percebi um padrão difícil de desver: empresas que chegam fortes em janeiro não fizeram um “planejamento melhor”; fizeram um “planejamento antes”. Quando a maioria estava encerrando atividades, elas já tinham travado as decisões críticas (metas com critério, orçamento por alavanca, pessoas-chave posicionadas) e já tinham rodado pilotos discretos, de baixo risco, que virariam execução logo na primeira semana útil do novo ano. Dá vontade de chamar isso de “sorte”, mas não é. É antecedência disciplinada. É o tipo de preparo que transforma aquele “vamos ver” de janeiro num “vamos fazer” com naturalidade.
E os dados confirmam isso.
Um estudo da Deloitte (2023) mostrou que empresas que antecipam o planejamento em pelo menos 45 dias
têm 31% mais previsibilidade de receita e 24% mais produtividade comercial.
O que separa quem cresce de quem sobrevive não é a meta, é o momento da decisão.
Crescimento não é uma virada de calendário. É uma virada de consciência.
E aqui vai uma provocação que eu gostaria que você guardasse: “planejar” não é sinônimo de “prever o futuro”; é sinônimo de “não ser pego de surpresa pelo óbvio”. É escolher antes. Escolher o que entra, o que sai, o que vai primeiro, o que pode esperar. É aceitar que toda estratégia séria é, no fundo, um exercício de renúncia — você abre mão de algumas possibilidades para apostar com força nas que têm mais chance de se pagar. Esse tipo de decisão dói porque fere o nosso desejo de manter todas as portas entreabertas. Mas portas entreabertas não levam a lugar nenhum; elas só deixam corrente de ar.
2026 começa agora!
Essa frase pode parecer simbólica, mas é literal. O crescimento de uma empresa não acontece por sorte: é consequência de planejamento e ritmo. As empresas que mais crescem não têm bola de cristal., possuem processo. Elas decidem quando o resto ainda debate, planejam quando o mercado ainda está distraído e executam quando os outros ainda estão pensando.
Quem estrutura antes, escala depois, quem organiza agora, colhe estabilidade lá na frente. Quem espera as coisas “se acalmarem”, quase sempre fica pra trás.
A maioria das empresas vive em modo reação:
• Janeiro — empolgação e slides inspiradores.
• Março — “precisamos ajustar as metas”.
• Junho — “vamos salvar o semestre”.
• Outubro — “retomada”.
• Dezembro — “ano que vem vai ser diferente”.
E o ciclo se repete.
Você não colhe em dezembro o que não plantou em novembro.
A nova lógica do planejamento
Durante décadas, planejamento foi sinônimo de burocracia. Mas o mercado aprendeu que previsibilidade é o ativo mais valioso de uma operação. Empresas de alta performance tratam o planejamento como cultura — não como evento.
Fecham planejamento estratégico até novembro, definem o MVP do ano (as três alavancas que realmente movem o ponteiro), testam pilotos no quarto trimestre pra escalar no primeiro e entram em janeiro executando, não discutindo.
Como começar — os três rituais BiUP
1. Diagnóstico Sem Medo (DSM)
Olhe pro que o ano ensinou.
O que funcionou? O que foi ruído? Quais gargalos se repetem?
2. Rota com Dono (RCD)
Defina as metas do ano e os prazos
Liste todas as prioridades estratégicas, depois as ações táticas por trimestre e defina o responsável.
Transparência cria responsabilidade.
3. Cadência que Acontece (CQA)
Mensure a execução do planejmento através de reunião mensal / semanal curta: meça a ação e o resultado
Simples. Funciona. E quase ninguém faz.
Esses três rituais não são originais. São óbvios. E justamente por isso quase ninguém os protege quando o calendário aperta. O curioso é que, quando você os protege, o resto começa a ganhar uma simplicidade que parece injusta. O time sabe o que importa, os desvios ficam visíveis cedo, a energia não se perde tentando reexplicar a estratégia a cada nova semana. Você ganha fôlego para testar, errar pequeno e ajustar rápido — que é o jeito mais honesto de inovar sem quebrar o trimestre.
Se você quiser fazer disso uma prática hoje, sem pedir benção pra ninguém, aqui vão três perguntas que abrem caminho sem esperar janeiro: (1) o que eu posso travar agora que vai fazer meu “eu de janeiro” me agradecer? (2) qual piloto barato eu consigo rodar nas próximas duas semanas para aprender algo que evite um erro caro no Q1? (3) o que eu preciso deixar de fora, por mais sedutor que pareça, para não matar o foco das três prioridades? Promessa: se você responder com honestidade e agir, o trimestre já mudou — mesmo que ninguém poste isso no LinkedIn.
Quero te deixar também um bloco prático, no estilo 1:1, pra rodar com IA como copiloto de pensamento (não como oráculo). Copie e adapte sem cerimônia:
— Prompt 1 | DSM guiado: “Considere os principais entregáveis de [área] entre [mês] e [mês]. Classifique em ‘funcionou por método’ vs ‘funcionou apesar do método’. Para cada item, descreva brevemente qual parte do processo sustentou (ou não) o resultado.”
— Prompt 2 | Rota com Dono: “Para as 3 prioridades a seguir, gere um quadro com: meta, métrica líder, métrica de efeito, prazo, responsável por resultado, responsáveis por execução, riscos visíveis e plano B.”
— Prompt 3 | CQA enxuta: “Monte uma pauta de 30 minutos para reunião semanal de [área], com check das métricas, decisões necessárias e próximos passos por pessoa com D+ (D+1/D+3/D+7).”
— Prompt 4 | Corte elegante: “Dado o escopo de [projeto], proponha o que cortar agora (sem perder o objetivo), o que postergar e o que manter, justificando pelo impacto na métrica de efeito.”
— Prompt 5 | Piloto rápido: “Sugira 2 pilotos de baixo custo/baixo risco para validar [hipótese] nas próximas 2 semanas, com critério de sucesso e decisão binária (‘escala’/‘descarta’).”
Repara que nada disso exige revolução. Exige decisão no tempo certo. E decisão no tempo certo exige uma postura que, a esta altura, já ficou clara aqui: janeiro é reflexo, não início. O início é agora, no intervalo que a maioria usa só para fechar pendências. Eu entendo o cansaço — todo mundo chega em dezembro com uma pilha de abas abertas dentro da cabeça. Mas a escolha de duas horas bem dadas, protegidas da ansiedade, pode valer um trimestre inteiro de fôlego. Se você guarda um bloco para revisar números, guarde outro bloco para revisar escolhas. Se você tem uma lista de pendências, tenha outra de renúncias. Um plano que diz “não” com clareza costuma acelerar mais do que o “sim” entusiasmado demais.
Se você ficou com a sensação de que “é simples demais pra dar tanto resultado”, este era exatamente o efeito que eu queria causar. O simples feito cedo tem uma vantagem que o complexo feito tarde nunca alcança: ele acumula. Cada semana que você evita refazer alinhamentos é uma semana que você investe em melhorar a execução. Cada “não” dito na hora certa libera a energia de dois “sins” que te puxariam para lados diferentes. Cada ritual mantido quando a agenda aperta ensina a organização a confiar mais no processo do que no humor do dia. É assim que previsibilidade vira cultura — e cultura vira vantagem mesmo quando o mercado balança.
Planejar não é prever o futuro — é decidir não ser pego de surpresa pelo previsível.
Eu não sei como vai ser o seu 2026. Ninguém sabe. Mas eu sei que a sua chance de liderar o seu 2026 aumenta muito quando você desiste da fantasia de que ele começa em janeiro. O ano que importa começa quando ninguém está olhando. Começa no dia em que você decide parar de reagir e começa a construir. Começa no bloco de 90 minutos em que você chama a verdade pelo nome, no quadro visível em que os compromissos aparecem, na pauta de 30 minutos que não falha. Começa no silêncio que quase ninguém protege. E esse silêncio, apesar do nome, faz barulho no resultado.
2026 começa agora. Quem deixa para depois, fica para trás.
E a escolha começa aqui, com quem já decidiu crescer antes que os outros despertem.